Um salve para todos os leitores da TOCADOMAGGOT. Após um certo hiato literário, pretendo retomar as minhas atividades no blog. Devido a falta de interesse dos outros autores que fundaram esse antro de difamação social, cabe a mim recriar a era de ouro das nossas postagens.

Um fator comum nos posts que atingiram um certo nível de ‘popularidade’ e ‘prestígio’ é a divagação criativa, coisa que passarei a explorar com mais frequência. Mas não agora. No momento, estou inspirado para mais uma das impopulares e polêmicas  ‘críticas musicais’, onde discursarei a respeito de uma obra que me chama a atenção.

Hoje, estarei explorando a fundo mais um FUNK da nossa famosa ‘playlist’. Dessa vez, a origem desse batidão é de outro estado do nosso Brasil; ao contrário dos artistas previamente trabalhados, a dupla é paulista. Estou me referindo a “Pato e Sam“, com a maravilhosa composição “Sequestro – Quadrilha Em Ação“, recentemente trazido a tona por um parceirão dos meus trabalhos, Roger Farias.

Dessa vez, tentarei ir além da música em si. Sequestro não é um funk “abstrato”, como as obras de MC Tevez previamente discutidas. Essa obra em particular é muito objetiva e concreta. A dupla trabalha muito bem na imersão do ouvinte na situação que é narrada, detalhando cada passo das atividades, eliminando a margem de interpretação equivocada do ouvinte que seria característica forte do funk carioca. Escute e acompanhe a letra dessa aventura poética, pois pouco se completará em sua experiência após a primeira escuta.

Sequestro – Quadrilha Em Ação

Tu ta ligado eu to bolado a chapa é quente, desde pivete 157 consciente.
Nossa familia é a quadrilha inteligente pego o brinquedo e logo cedo enche o pente.
Broto que cai maluco vai direto e reto se vacilar ou se tentar ser mais esperto,
Ai muleque oi pede breque oi sai de perto, não me arrasto oi se afasto eu corro pelo certo…
Mas nem sempre minha cena não é triste a única saída é mete bala na policia
Então é vida ou morte vê se pode ou então fica trancado e jogado na mão da justiça.
O juiz hoje me solta, não to mais preso é isso mesmo eu to de volta.
De volta ativa ai família da bartuba não é um banco o nosso plano agora muda.
Relâmpagos enfrente dos caixa eletrônicos menos de um mês a gente fez uns 12 conto.
Compro umas peças e bem de pressa eu bolo um plano, agora é claro um empresário eu só to registrando.
Se nois tromba com a goe é só rajada eu to de furi e na cintura é soh quadrada.
Já registrei mais de 2 meses esse empresário que toda vez quando é as seis vai pro trabalho.
Antes das 7 o seu pivete vai pra escola e com a criança um segurança de pistola.
Essa é a escolha a quadrilha de novo em ação, meu tempo é curto ai maluco vai se joga no chão.
Não reage se não tu vai pro saco, sé quero o filho do seu patrão dentro do carro.
A fuga claro cinematográfica deu certo, eu já to perto, o plano ta concretizado.
Já cheguei no cativeiro e com refém chego também mais dois parceiro.
No telefone o mano Boni negocia, pra não suja bem longe da periferia.
Não da vacilo pois o seu filho é nossa vitima, sem desespero só o dinheiro da família.
Local marcado, engatilhado oi lá no shopping, viu nois chegando e segue o plano e não entra em choque.
Situação que o plano não é confiável, sem o resgate o cheque mate é inevitável.
E no jornais o seu filho vai vira noticia, se envolver ou se correr com algum policia.
Nosso final não vai ser mal e nem ser trágico ouvindo som nois vamo com audi blindado.
Junto comigo os manos indo no local marcado temos com a gente oi vários pentes carregado.
A cena triste e quem se importa? mas agora não tem mais volta.
Na contenção do audi vem o Kadetão filmado mais lá shopping tem vários policia disfarçado.
Começou a trocaria, porque o cliente e o gerente era policia.
O faxineiro e o copeiro oi também são civil não esperava que nois tava de fuzil.
Tipo o cliente foi q a gente pego os malote.
Mais o safado oi disfarçado deram bote.
Tinha civil e não cumpriu com a palavra também.
No telefone avisa o Boni
Pra mata o refém. e nossa fuga é claro, igual não tem, os bota preta não acertaram ninguém mais não tem jeito Boni .. Mata o refém !

Pois bem. Se a escuta consciente for realizada, provavelmente a forma clara com que é exposta a saga é auto-explicativa. Podemos, nesse caso, abstrair um significado além da poesia em si. Primeiramente, o tema abordado é o crime, que, aliado a putaria, constrói a temática do funk proibidão. Além disso, podemos adicionar um agravante ao ato criminal: a filiação com a quadrilha PCC, o Primeiro Comando da Capital.

Agora, devemos nos questionar: seria esta música um relato baseado em bandidagem ou uma mera divagação artística? Criminalidade ou criatividade? A resposta para esse questionamento influi diretamente na maneira de encarar sua temática criminosa.

A ausência deste questionamento por parte do ouvinte é a razão por traz da estigmatização social acarretada pela escuta do funk. A ignorância dos que julgam o funk como sendo “sem conteúdo” chega a ser até mesmo ofensiva. Uma reação parecida pode ser observada através da história, como por exemplo os primeiros romances literários do realismo do século XIX, que atacavam a sociedade e um introduziam um certo erotismo “exacerbado” em seus livros. Um outro exemplo clássico é a forma marginal que o samba era encarada no início do século XX, exatamente da mesma forma que temos o preconceito contra seu ‘substituto’ no morro atualmente.

No momento em que o funk se encontra hoje, a discriminação contra o gênero impede sua difusão para além das áreas marginalizadas da sociedade.
Não, escutar funk não transformará seu filho em um assaltante. Não, escutar funk não transformará sua filha em prostituta. Sim, o conteúdo lírico do funk será um conflito de cultura e ideologia para eles. Mas veja bem, forçado a encarar um ponto de vista completamente diferenciado do que lhe é corrente, o jovem será exposto a uma realidade alternativa, questionando os valores da sociedade em que vive e aprendendo mais sobre mil e uma coisas:

O que é certo? Por que isso é errado? Será isso realmente errado? Quem disse que é? Qual o fundamento por traz da condenação da putaria? e do uso de drogas? Por qual motivo o indivíduo marginalizado comete crimes? O pobre é, por natureza, mau? A forma gloriosa em que se retrata os atos ilícitos praticados por eles pode ser justificada? Eles tem a mesma visão das autoridades que eu tenho? Será que as experiências que por ele foram enfrentadas justificam o apoio de um ‘poder paralelo’? Seu desejo por revolução é justificável? …? …?

Tantas outras questões surgirão e poderão ser levadas a discussão com uma escuta consciente da produção cultural desse nicho socioeconômico. O lógico não é condenar o funk por si só, mas sim condenar a escuta ‘errada’ desse som. Isso, claro, também abrange outros tipos de música, como, por exemplo, o BLACK METAL. A forma pejorativa com que esses gêneros são tratados reflete o preconceito do membro da sociedade em geral em relação a essas manifestações genuínas da criatividade e ideologias humanas e sua preferência pelo resultado artificializado que é empurrado goela abaixo pelos veículos midiáticos hegemônicos.

Vale lembrar que, como em todos os tipos de música, não são todas as obras que refletem a identidade do estilo.

Finalmente, realizo meu apelo para todos que condenam o funk proibidão pela sua temática criminosa e vulgar: escute de maneira crítica. Entenda o que o sujeito está transmitindo. Vá além das palavras de baixo calão e encontre a razão por traz das mesmas. Desvende a forma com que o MC articula seu discurso, como as palavras se relacionam umas com as outras de forma calculada. Encontre a obra de arte que se esconde por traz da agressividade léxica do artista.       OU NÃO.     Ignorância. Conformidade. Alienação. Continue com sua TV ligada e Facebook aberto. Continue patinando nas opiniões públicas e na futilidade social. Continue mais um número nas estatísticas. Continue renegando seu potencial intelectual…

Terminarei por aqui, homenageando o brother Roger que inspirou toda esse desabafo.

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