Olá, maggots.

Em razão do sucesso da postagem sobre preconceito musical, as vozes de Odin me sussurram mais uma criação. Como da última vez que recebi essa entidade em meu corpo,  escreverei a respeito do nosso ilustríssimo patrono Varg Vikernes, completando assim sua saga. Para quem ainda não teve a oportunidade de desfrutar do primeiro relato, ainda há tempo de se converter. E por algum motivo sombrio, meu último post sobre ele se tornou estranhamente popular, chegando ao ponto de criar vida própria e sustentar sozinho quase metade das visualizações mensais da TOCADOMAGGOT.

OS ANOS DE CÁRCERE

Muito pode ser dito em relação a esse período da vida de Varg. Após condenado a pena de 21 anos de cadeia, que inclusive é a penalidade máxima aceita pela legislação norueguesa, Vikernes teve uma oportunidade única de se entregar completamente a reflexão existencial. Publicações foram feitas em seu website manifestando seu desejo de disseminar seus pensamentos, publicando livros oculto por pseudônimos e lançando mais dois álbuns do Burzum. Irei percorrer sua trajetória na cadeia nesse primeiro relato.

Varg sempre manifestou um ódio especial ao cristianismo, fundamentado tanto historicamente quanto socialmente. Toda a popularidade que revolvia em torno de sua pessoa tinha um teor ‘satânico’: condenado por queimar igrejas e assassinar um companheiro de banda, era muito fácil realizar um julgamento de valor negativo, condenando suas ideologias além dos atos criminosos em si. Foi esse o momento em que Varg aproveitou o espaço na mídia para divulgar seu trabalho: abraçou as acusações de práticas satanistas para propagar suas idéias anti-cristãs. Muitos outros discípulos seguiram seus passos em outros países e a repercussão dos incêndios por influência de Varg tem pelo menos três ocorrências confirmadas, além de incontáveis duvidosas.

Varg Vikernes

A MÚSICA

Durante esse período, Varg foi privado do acesso a instrumentos musicais, com exceção de um sintetizador.  Dauði Baldrs em 1997 e Hliðskjálf  em 1999 foram trabalhos de enorme importância na maturação do som da banda. Ambos são instrumentados exclusivamente com seu sintetizador, embora seja trabalhado a ponto em que nada fica devendo a experiência musical de nenhum de seus outros álbuns. Uma pitada de experimentalismo também se faz presente em suas composições, que exploram mais recursos eletrônicos na consistência sonora. A ambientação sonora passa a ter um aspecto mais ‘solene’ e ‘elevada’, embora igualmente obscuro, confrontando a agressividade nebulosa dos calabouços burzúmicos de outrora. Uma certa forma de minimalismo e repetição pode ser observada em faixas mais extensas.

Após seu último lançamento, em 1999, Varg declarou um hiato aos trabalhos da banda. As atividades no Burzum foram retomadas apenas 10 anos depois, quando já em parola, com a gravação de BelusEsse álbum faz um retorno as origens da sonoridade inicial da banda, principalmente pelo uso da instrumentação original. A temática lírica de suas músicas, nesse ponto, condizia com sua ideologia pagã, onde a religião representa um conjunto de valores a se seguir, mais de forma alguma pode ostentar alguma forma de ‘religiosidade’, pensamento elaborado por ele como “If it is supposed to serve a purpose, Paganism needs to be an ideology, not a religion”. Varg também nos esclarece que, em sua concepção, Odin é o adversário do cristianismo e judaismo, e o satanismo seria uma mera extensão da fé cristã. Temos um relato claro de suas visões religiosas no relato do próprio:

“Christianity was created by some decadent and degenerated Romans as a tool of oppression, in the late Roman era, and it should be treated accordingly. It is like handcuffs to the mind and spirit and is nothing but destructive to mankind. In fact, I don’t really see Christianity as a religion. It is more like a spiritual plague, a mass psychosis, and it should first and foremost be treated as a problem to be solved by the medical science. Christianity is a diagnosis. It’s like Islam and the other Asian religions, a HIV/AIDS of the spirit and mind.”

Warg Wikernes

OS LIVROS

A produção literária de Vikernes foi muito eflorescente no período de seclusão.  Seus trabalhos refletem a sua perspectiva pessoal do mundo, dissertando sobre o papel da ideologia na construção do caráter, denunciando o teísmo como “escravização do pensamento” que só se presta para “raças inferiores”. Sua visão política de direita extremista também é percebida. Varg também se proclama racista, mas esclarece que não ostenta ódio a ninguém, baseado na ideia que esse ódio seria irracional, contrariando sua ideologia. A maioria da sua produção desse período não foi ainda publicada.

Seu primeiro livro, “Vargsmål” (1994), é um instrumento de defesa contra os ataques que sofria da mídia. É um livro escrito especialmente para os noruegueses e sua tradução para o inglês é condenada pelo próprio autor. Varg comenta sobre seu primeiro livro:

“Vargsmål was written in anger, while I was young and in isolation, and the book is marked by this”.

Os segundo livro (1998) tem um foco mais religioso. “Germansk Mytologi Og Verdensanskuelse” (Teutonic Mythology And Worldview) é onde Varg escreve de forma mais séria, trabalhando a temática da mitologia nórdica no coditiano. Varg reclama do boicote que sofreu nessa publicação, tal que até mesmo bibliotecas julgam seu trabalho ‘inapropriado’.

O terceiro livro, de 1999, “EihwaR” não foi publicado em inglês. Esse já é um relato mais político e filosófico, escrito em forma de diálogo.

Os dois seguintes, “Teorier” (Theories) e “The Runic Völuspá” não foram ainda publicados, ambos sobre temas religiosos.

“The Cult Of Hel”, seu sexto livro, é uma ficção para um outro tipo de público: fãs de Black Metal. Também não foi publicado.

Seu sétimo, em 2004, é tradução e ‘melhoramento’ do seu segundo livro, que foi rebatizado “The Mysteries And Mythology Of Ancient Scandinavia”. Ainda não foi publicado.

Também foi escrita uma série autobiográfica importantíssima em seus artigos no site do Burzum, onde Vikernes justifica seus crimes e divulga suas convicções. Uma série muito interessante sobre paganismo também pode ser encontrada na mesma página. Alguns artigos aleatórios também estão no conjunto.

Varg Vikernes stealth nos ramos

Um outro evento intrigante é a fuga de Varg em outubro de 2003. Após deixar a prisão, Varg foi encontrado com um carro roubado carregado com aparato balístico. Dentre os itens encontrados, haviam armas de fogo, facas longas, um aparelho GPS, diversos mapas e bússula, um laptop, um passaporte falsificado e vestimenta de soldado. Como consequência da captura, 13 meses adicionais foram estendidos em sua pena. Além disso, também foi translocado para uma penitenciária de segurança máxima.

VARG VIKERNES COTIDIANO

Desde sua libertação, Varg tem se dedicado a família. Atualmente, mora em uma pequena fazenda em Telemark com os filhos e a esposa. Isso não impediu de forma alguma a continuidade do seu trabalho no Burzum. Desde que foi solto em 2009, sua produção foi de 4 álbuns, três com músicas inéditas e uma coletânea de regravação dos primeiros trabalhos. A sonoridade Burzum ainda continua a mesma: Varg constatou que, apesar de suas experiências, não é capaz de fugir do Black Metal. Uma característica intrigante dos trabalhos que assina é o desejo de divulgação livre: Vikernes é contra a comercialização de seu trabalho.

Varg Vikernes

Enfim, podemos finalizar esse relato sobre a vida e obra de um grande homem, cujo nome será para sempre cravado na história como personagem polêmico e genial. Todas as ferramentas para uma leitura aprofundada podem ser encontradas no site do Burzum, mais de nada vale ‘ler’ sobre o homem sem que escute sua música. Uma sugestão pessoal de iniciação é o seu primeiro álbum, Burzum de 1992, onde Varg dá origem e sistematiza todo o som que será encarado nos próximos 20 anos como o verdadeiro Black Metal.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s